29 de janeiro de 2018

A Lealdade é um amor que esquece o mundo


Só se é realmente leal quando se está sujeito a alguém ou a algo.

Aí, onde mesmo um sonho pode ser senhor.

Na sujeição de quem serve uma causa, na sujeição de quem se submete a um chefe, na sujeição à pessoa amada, na sujeição do sentimento e na sujeição do dever, no sacrifício da liberdade, da razão e do interesse.

No desperdício e no desprezo do que está à vista e do que está à mão, é nesta desagradável situação que se acha ou não acha a lealdade.

É por ser selvagem e servil, mas só a um senhor, que a lealdade tem valor.

É muito difícil ser-se leal, mas só porque é muito difícil seguirmos o coração.

A lealdade é um amor que esquece o mundo.

Ao escolher um amigo, e ao ser-se amigo dele, rejeitam-se as outras pessoas.

Quando estamos apaixonados, é através dessa pessoa que amamos a humanidade.

O amor ocupa-nos muito.

E para os outros, não fica quase nada.

Não se consegue ser leal ao ponto de calar o coração.

Mas sofremos com as nossas deslealdades.

Sabemos perfeitamente o que estamos a fazer, quem sacrificamos, e porquê.

É por causa da consciência da nossa imperfeição que o ideal da verdadeira lealdade não pode ser abandonado ou alterado.

O fato de ser incumprível não obriga a que se arranje uma versão softcore, mais comoda e realista.

É preciso aguentar.

A lealdade é uma coisa tão cega e simples de determinar quanto é difícil de determinar quanto é difícil de seguir.


Miguel Esteves Cardoso

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