14 de fevereiro de 2017

Mãe


Ouvi chamar-te pela primeira vez numa rua sem árvores
Mas onde eu sabia haver tílias florindo
Com uma alma enorme
Como só têm o mar e os desertos,reconheci-te
numa espécie de paixão
e foi assim que pude partilhar-te com a razão e a luz
Como é que se faz,pergunto-me,para transformar
todo o perfume de Junho,num pequenino nome?
Tão pequena morada guarda as mais inesperadas 

coisas:um ramo de neve,o sol espreitando de uma ferida,
o pequeno dócil animal mais leve e mais limpo do que o ar.
Ouvi-te pela primeira vez era já uma criança.

Ou devo dizer ainda?
Com as tílias,floriram também os
minúsculos sons dessa quase palavra,talvez mais rumor 

ou murmúrio,mais,quem sabe?
água que chega das nascentes do olhar.
Existem nomes onde nada cabe,outros que guardam a ternura do mundo.
No teu nome brilha ainda a minha vida,esta espécie de resposta
à pergunta incessante que me faz cada um dos meus dias.

Eu sei que sou em grande parte a minha memória,
a memória que a roseira tem da chuva
ou a respiração do ar
ou a cigarra do estio
e que tudo,tudo,pode ter a dimensão afinal
de coisa nenhuma,ou a dimensão que colocou Deus
no coração de uma semente e o teu nome nas mon
tanhas do universo.
Eu sei que sempre coube inteiro no teu ventre
de uma palavra;que não precisei nunca
nem dos lábios,nem da fala,nem do mais intranquilo pensamento
para saber do azul fundo do teu nome.

Mas lembro-me que me ouvi chamar-te pela primeira vez numa rua sem árvores
onde eu vi só eu vi? tílias florindo.

JOAQUIM PESSOA

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