19 de janeiro de 2017

Desassossego


Vivo sempre no presente.

O futuro, não o conheço.

O passado, já o não tenho.

Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada.

Não tenho esperanças nem saudades...

Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir.

Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser.

Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Não quero mais da vida do que senti-la a perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam...

Fernando Pessoa.

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